Meu primeiro contato com as interpretações de Valentina Lisitsa ocorreu em 2007, nos primórdios do Youtube. Àquela época, uma pianista que mantinha canal próprio, postava as interpretações e deixava espaço para comentários era uma grande novidade. A falta de histórico deixava subentendido que Valentina havia dado uma rasteira no establishment. Ela seria uma outsider, que abraçava a tecnologia para alçar voo solo. É claro que isso não correspondia bem aos fatos. Valentina havia estudado no Conservatório de Kiev, participado de concursos, ganho um prêmio. Tinha anos de trajetória. Mas os entusiastas do então popular Orkut alimentavam toda uma mítica a seu respeito.
À medida que o número de vídeos crescia, as interpretações de Valentina podiam ser melhor avaliadas e muitos perderam a admiração. Mas alguns morderam a isca e decidiram criticá-la. É sempre bom atacar o establishment e, a cada observação negativa recebida, os fãs respondiam com mais e mais comentários e curtidas nos vídeos. Em pouco tempo, Valentina havia se convertido em ídolo da autonomia, bandeira de uma independência imaginária.
Foi assim que Valentina se tornou a atual rainha do piano. Foi assim que catapultou turnês, gravou para selos como Naxos, Decca e Deutsche Grammophon. E foi assim que obrigou os críticos a aceitarem novos parâmetros para o julgamento de tanto sucesso. Sua atuação passou a ser vista então como oportunidade única de atrair plateias onde o interesse pela música clássica podia ser reconquistado.
Mas por que as interpretações de Valentina são objeto de críticas?
Basicamente, pela irregularidade. A execução sofre com a falta de hierarquia. Melodias secundárias atravessam repentinamente a principal e sobressaem. O toque é desigual e as notas engolidas resultam em incoerências nas frases. Valentina tem dificuldades para manter a dinâmica. Acentua notas como bem entende e seu crescendo tem pouca abrangência. Os arpeggios são heterogêneos, não parecem seguir um propósito. Podem ser executados tanto como uma grande appoggiatura quanto como uma rígida sequência em stacatto.
Ao ouvir suas interpretações, não se sabe o que deriva do quê. Não se sabe se as idiossincrasias são, na verdade, lapsos, falhas técnicas ou simplesmente um erro de concepção musical. A frase que invade outra é um problema de execução ou de interpretação? Por que seu crescendo é tão restrito? O que se espera de um pianista é que domine a obra e demonstre coerência em suas escolhas interpretativas. A leitura precisa abranger determinado conjunto de referências, de modo que a audição transcorra, no mínimo, sob a expectativa de realização dessas ideias. Infelizmente, o universo de Valentina é ocupado por desvios demais. As interpretações muitas vezes beiram o acaso e as idiossincrasias não chegam a constituir uma identidade.
Todos os pianistas são postos lado a lado e confrontados. Todos têm vícios e virtudes. Comparações são feitas, gravações e turnês célebres são evocadas. Mas Valentina não pode ser comparada a ninguém, já que seus fãs pertencem à camada de exclusivistas. Querem apenas ouvi-la, cultuá-la.
Nem tudo, porém, deve ser posto em sua conta, já que o meio musical também tem seus defeitos. Relações se guiam por melindres e divergências acabam em disputas de egos. Alguns músicos simplesmente buscam pautar a vida por seus próprios critérios. Quem não quiser, que não os escute. Simples assim. Valentina teria sofrido retaliações por opiniões controversas sobre a independência de seu país, a Ucrânia, mas até hoje ninguém descobriu nenhuma relação possível entre essas declarações e o que faz ao piano. As teorias se multiplicam. Diz-se que ela é perseguida, que serve a interesses políticos, que tudo não passa de uma jogada de marketing. Fantasias à parte, o público percebe que, no meio da música de concerto, intérpretes podem pensar de tudo, desde que não declarem. Fãs reconhecem em Valentina um bastião da autonomia e, quanto mais conflitos com o establishment, mais sua persona se realiza, mais sua carreira se consolida.
As críticas a suas interpretações precisam, apesar disso, ser compreendidas dentro de termos gerais. Não correspondem à totalidade de sua atuação nem se propõem a instituir um receituário de defeitos a serem buscados durante a audição. Valentina tem seus méritos. Digam o que disserem, é uma boa intérprete do repertório russo e seus lançamentos em cd e dvd são dignos de nota. Os intransigentes alegam que estúdios operam milagres, mas não é preciso boa vontade para se reconhecer a qualidade de tantas outras interpretações suas, ao vivo. Críticas não são picuinhas. Uma audição nem sempre é uma epifania musical.
Valentina Lisitsa está longe de ser o perigo que muitos enxergam. Pode não ser grande pianista, mas é uma intérprete de sucesso, que conquistou parcela do público nesses tempos em que o alargamento de critérios alcançou ambientes tradicionais. Para as últimas gerações, a tradição representa valores dos quais desejam se aproximar, mas livremente, a seu modo. A crise de autoridade é a tônica de nosso tempo. Cada um escolhe, pelos próprios meios e motivos, aquilo que quer ser, admirar e odiar. As interpretações de Valentina são o paradigma, em música, daquilo que hoje somos e vivemos.


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