quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Diários de Andy Warhol


Para quem nasceu a partir dos anos 2000 e ignora quem foi Marilyn Monroe ou o que seja uma lata de Campbell's, as serigrafias de Andy Warhol são representações de um universo popular antigo, sem nenhum outro significado. Ela era cantora? São latas de tinta? Já ouvi as perguntas uma centena de vezes. Confesso que nem sempre dou logo a resposta, em homenagem ao próprio artista, que desbotava as figuras para aludir à confusão e ao esquecimento.

De fato, Marilyn já não tem qualquer importância para o século XXI e as sopas Campbell's desapareceram do imaginário americano, dominado hoje por produtos chineses e ideologias até bem pouco tempo ignoradas. É preciso, portanto, um novo Warhol, da era Trump, de um mundo que caminha sem rumo definido. Vivemos uma estética fraca, sem ideias contundentes. Não por falta de material. O ódio à imprensa, à instrumentalização acadêmica, ao proselitismo de Hollywood e à tomada das instituições eclodiu como a esquerda jamais imaginaria. Por outro lado, a constatação de que os vendedores da liberdade capitalista tornaram-se bilionários que controlam nossa vida muito mais do que qualquer governo embaralhou as ilusões da direita liberal. Nenhum desses temas é abordado pela arte contemporânea, que abdicou do pensamento crítico. O atual refúgio num culturalismo autocomplacente ou em nichos reivindicatórios de um passado grandioso levam a produção artística a uma carência cada vez maior de sentido. Sem um diálogo com o universal, há apenas chilique e provincianismo. É preciso uma arte que reflita sobre esse fenômeno.

Há quem diga que a assertiva sobre os 15 minutos de fama nem é de Warhol, que não passa de uma apropriação, o que anularia de vez a importância do artista. Mas isso é que não importa. As próprias obras que saíram do studio (ou factory, dependendo da época) foram produzidas por mãos alheias e nem por isso deixam de ter sua autoria. Pós-modernidade nada tem a ver com autenticidade e, na altura do campeonato, quem busca pensamentos e obras originais não compreendeu o espírito da coisa. O que vale é a ilusão da personalização, a crença de que se está livre para decidir, quando o universo de escolhas foi limitado de antemão. Convém nunca esquecer o detalhe: a fama de 15 minutos é apenas a participação no jogo, não a possibilidade de mudar as regras.

O fato é que se Warhol está substancialmente ultrapassado, toda a estrutura em que ele assentou a carreira está vivíssima e pujante. Mass media é assim. Admira-se uma figura sem que se saiba o porquê. Pessoas trocam a família por um fanatismo qualquer, vestem-se conforme personagens, incorporam jargões e emulam sentimentos, tornam-se orgulhosamente postiças. Até o ódio à verdade é estereotipado. Ligue a tv, converse na faculdade, entre no Instagram, Facebook ou X. Só se vê isso.

Desde que foram lançados no Brasil, em 1989, os Diários têm passado incólumes mesmo nos meios de arte. As anotações começaram em 1976 e foram feitas ao telefone por Pat Hackett, a assistente para quem Warhol ligava todas as manhãs. Quem enfrenta as mais de mil páginas de relatos, se depara com muito do que está nas obras. Nomes como Mick Jagger, Yoko Ono, Salvador Dalí, Arnold Schwarzenegger, Pelé, Elton John, Elizabeth Taylor e Michael Jackson desfilam pelo que têm de mais fútil, nunca por suas realizações. Todos estão chapados, distorcidos, descontextualizados, retratados em cores berrantes. Todos, inclusive o próprio Warhol, estão reduzidos a uma inutilidade atroz, submetidos a observações de um completo artificialismo e descartados a ponto de não merecerem a empatia do leitor.

Para quem já conhece o pensamento Warholiano, os Diários têm pouco a acrescentar. Talvez elucidem uma relação pessoal aqui, esclareçam uma data ali, e ofereçam uma ou outra sacada para afetação de inteligência em público. De resto, tudo é previsível, redundante e insuficiente até mesmo para estruturar um panorama de época. Fama e dinheiro são mostrados a serviço de chantagens e vinganças milionárias. Casamentos de fachada se desfazem de uma linha para outra, mortes se comprovam suicídios, carreiras surgem da prostituição e reputações são destruídas com a simulação de escândalo por entediados com a vida. Alguma novidade?

Warhol narra festas bobas, meros pretextos para o consumo de drogas e início de affairs, em que os participantes são usados, jogados uns contra os outros, ridicularizados pela aparência física, como se nada tivessem além de altura e peso. Talvez não tivessem mesmo. Nos relatos, predomina uma overdose de hedonismo pontuada por explosões narcísicas e um consumismo desenfreado. Após centenas de descrições de roupas de grife e corridas de táxi, a imagem que fica é a de pessoas completamente à deriva, perdidas, circulando de um lado para outro à sombra do próprio nome. Somente isso.

Por não falar sobre o métier, Warhol consolida a essência fútil do que produzia. Não há nos relatos pensamentos sobre artistas, fontes de inspiração ou concepções estéticas. Quem busca opiniões e observações sobre arte, quaisquer que sejam, termina a leitura frustrado. A própria revista Interview, mantida e encabeçada pelo astro, se revela um mero investimento na glamourização de seu círculo. Entre afetações de desdém, Warhol afirma que se livrava dos exemplares em lojas, boates e onde mais pudesse, na esperança de angariar anunciantes e elevar o parco número de leitores, mantido sempre numa grandeza indefinida. Mesmo as visitas a leilões e galerias de arte se tornam oportunidade de manifestar o cinismo blasé, a simples entrega à compulsão por compras, sem que o interesse pelo que adquiria fosse além do fetiche momentâneo da posse.

Os Diários de Andy Warhol conduzem à total descrença no sistema das artes e no showbusiness. Não há amizades ou cumplicidades aqui, apenas falsidade e a desgraça que subjaz à fama. Mas tomar ingenuamente essa dose estúpida de niilismo significa cair na lábia de quem vende a própria vida como objeto de desejo. Os Diários são o maior antídoto às mentiras de Warhol. Por isso devem ser lidos. Esse é seu valor.

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2 comentários:

Anônimo disse...

Descobri seu texto por acaso e curti muito! Tem uma dinâmica oral e me apresentou uma visão bem interessante da personalidade/personagem Andy Warhol. Confesso que me enquadro na descrição do primeiro parágrafo..rsrsrs
Beijos da Fê

Roberto Ormond disse...

Obrigado, Fê. Warhol incorporou como nenhum outro artista a essência midiática da época: comportamento, reações, expressões escrita e falada. Figura interessantíssima. Beijos