quarta-feira, 29 de junho de 2016

Retrato de Roger Scruton,pintado por Lantian D


Um retrato, uma paisagem e um universo de significados.
Análise do retrato do filósofo Roger Scruton pintado por Lantian D.


domingo, 26 de junho de 2016

Cristo Salvator Mundi, atribuído a Leonardo da Vinci


Considerações sobre o Cristo Salvator Mundi, atribuído a Leonardo da Vinci


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Exposição Você está aqui


     A visita à Exposição Você está aqui é uma excelente oportunidade para conhecer obras pouco divulgadas do acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Para quem frequenta o lugar há tempos, também é a chance de reencontrar antigas paixões, presentes em mostras de quinze, vinte anos atrás, mas mantidas na reserva à espera de ocasião propícia à exibição.
     A mostra tem curadoria de Amauri Dias, Anaildo Baraçal, Daniel Barreto, Euripedes Junior e Laura Abreu e, entre estudos marcados pela visão acadêmica de Vítor Meirelles e Rodolfo Amoedo, traz telas de Gustavo dall'Ara, Jorge Guinle e Helios Seelinger. O visitante tem também a satisfação de encontrar uma obra de Ivonne Cavalleiro, cujas paisagens de Copacabana ainda esperam a devida atenção. Saturadas de luz, elas retratam o eterno meio-dia carioca, sol a pino, e aquele bucolismo que ainda pode ser experimentado em cantos reservados do famoso bairro.

Yvonne Visconti Cavalleiro - Trecho da Rua Siqueira Campos

     Como a mostra não é apenas voltada às outrora denominadas 'grandes artes', e sim a um conjunto variado de criações relacionadas ao espírito do Rio de Janeiro, há, entre demais peças, uma Poltrona Mole representando o design de Sérgio Rodrigues, uma pia datada do século XVII e tida como remanescente do Morro do Castelo, e um grande desenho de Le Corbusier feito na ocasião de suas palestras na então capital da República, em 1936.
     No canto esquerdo da Sala Bernardelli, o visitante tem a surpresa de se deparar com um conhecidíssimo personagem carioca: o Orelhão - que, pela disposição num museu, suscita estranhas reações.
     Talvez pela crise, talvez pela desculpa que ela proporciona, o movimento do museu anda baixo, quase apenas de turistas e alunos que cumprem tarefas escolares. Das pessoas que passam pelo antigo abrigo telefônico, projeto de Chu Ming Silveira, poucas param e nenhuma parece estimar aquela que por três décadas foi a peça mais emblemática das ruas da cidade.
     Isso ocorre porque a superexposição de um objeto faz com que a vista não mais o perceba. O fato de um simples Orelhão estar entre obras intelectualmente elaboradas e de importância histórica mais significativa também se configura, aos olhos de alguns, mera provocação, à qual não querem responder. Parece que essa parcela dos visitantes leva demais em conta o fato de o objeto não estar no interior de uma instituição qualquer, mas do conservador MNBA. Já para jovens que cresceram no mundo dos celulares, o motivo da presença era outro: o de retratar a aparência anterior desse elemento de priscas eras. O modelo é antigo e a maioria jamais usou um ou sequer sabe operá-lo. A geração atualmente na faixa dos 30 anos não os usa desde a década de 1990 e não faz mesmo ideia de onde se compra um cartão para as chamadas - se é que ainda funcionam com cartão. Eles funcionam?
     Enfim, o Orelhão é o mesmo, mas sua percepção varia imensamente, conforme cada um que o olha.
     Como as demais criações humanas, sejam telas, esculturas, composições musicais, filmes e edifícios, uma peça de design sofre julgamentos apaixonados, desde a defesa mais ferrenha até a completa rejeição ou desprezo, baseados no caleidoscópio de evocações suscitadas. De recordações de infância a associações com momentos bons ou ruins da vida, passando pelo desejo de se vincular ou afastar dos valores associados a ela, é fácil se constatar por que uma peça pode ser importante para a história e ainda assim nem queiramos vê-la em nossa frente.
     Talvez no caso do design esses julgamentos sejam mais extremados do que nas outras artes, dado seu caráter utilitário e sua maior presença em nosso dia-a-dia. Enquanto mobiliário urbano, o Orelhão se tornou absolutamente inútil e mesmo os mais saudosistas são incapazes de preferi-lo ao aparelho que carregam no bolso. Alguns exemplares ainda resistem, como zumbis, povoando esquinas com propósitos bastante diferentes dos originais. Servem apenas como suporte para anúncios de profissionais do sexo, colados lado a lado, ao estilo das serigrafias de Warhol.
     Orelhões podem ser amados pelo que têm de insólito, mas se os respeitamos enquanto criação artística, é impossível não nutrir repulsa a tudo mais a eles relacionado. Representam o passado de subordinação a um monopólio e a uma concepção obsoleta de tecnologia e da sociedade. Quem dependia da telefonia pública os odiava, pois em 90 por cento dos casos os aparelhos em seu interior eram inoperantes.
     Mas não é esse o poder da arte: fazer algo perdurar apesar do que de pior a ele estiver relacionado? Fazer esse objeto valer apesar dos obstáculos da objetividade? Querendo-se ou não, o Orelhão é uma peça de nosso design e tem lugar garantido na história. O tempo sempre dá à forma um novo sentido.



     Outras obras que despertam interesse na exposição são a escultura A Carioca, de Rodolfo Bernardelli e a aquarela de Bruno Lechowsky, Rio de Janeiro, Capital da Beleza. A proximidade das obras se deve certamente ao fato de Lechowsky ter participado do chamado Núcleo Bernardelli, iniciativa de artistas livres que nas décadas de 1930 e 40 se inspiraram na renovação das artes operada pela geração anterior que, àquela época, tinha nos irmãos Bernardelli seus representantes ainda vivos. A paisagem de Lechowsky mostra a Copacabana de 1939, quando despontavam os primeiros edifícios do bairro. A grande dimensão da obra e as largas pinceladas comprovam a licença com que o pintor explorava a linguagem da aquarela, muito embora a temática permaneça bastante tradicional, como de praxe entre os integrantes do Núcleo. Já A Carioca, de Bernardelli, é dos primeiros anos do século XX. A concepção em movimento, com o dorso voltado para a esquerda acompanhado de movimento do quadril, confere à figura uma graça toda própria. Se à primeira vista não estabelecemos uma familiaridade com as feições da personagem, logo percebemos que ao artista interessava mais o tipo físico, o volume e proporções corporais do legado português.


     Também de Bernardelli pode ser visto o modelo para o monumento ao Barão de Mauá, que realizou verdadeiro périplo desde que foi instalado na praça em homenagem ao industrial, na zona portuária do Rio. A escultura ressalta a honra do empreendedor, cabeça desnuda, chapéu à mão, gesto elegante e em contrapposto, num corpo fatigado.
     A resignação do Mauá é também a nossa, diante de uma realidade bastante diferente do otimismo outrora cantado pela cidade. Mas a tragédia do carioca de hoje é ainda maior, por viver o outono sem ter conhecido a primavera. Quem tiver dúvidas, que conte nos dedos o número de visitantes de exposições.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Vasco Mariz


     Pouco antes de abandonar as aulas de piano, comecei a me interessar por Villa-Lobos, mas sentia falta de uma orientação para fruir melhor as obras. A cronologia das peças, os ciclos de Bachianas, Choros, peças para violão, os fatos biográficos - tudo parecia muito confuso para minha visão de adolescente. Foi então que descobri o livro Heitor Villa-Lobos, Compositor Brasileiro, de Vasco Mariz. Pude então me situar na produção do maior de nossos compositores e ao mesmo tempo desfrutar de uma leitura extremamente agradável, que muito me ensinava.
     Passados vinte anos, tive a oportunidade de conhecer Vasco Mariz, por ocasião de seu mais recente lançamento, Retratos do Império. Levei o antigo livro de Villa-Lobos e contei-lhe minha história. Quando me perguntou por que eu havia parado de estudar piano, respondi com sinceridade: Um dia havia percebido que ainda faltavam pelo menos cinco anos para começar a tocar mal.
     Ganhei então seus autógrafos e demos umas boas risadas.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Carl Czerny, o gênio à espera de um descobridor


     Durante os anos em que estudei piano, as peças de Czerny chamavam atenção pelo elevado número de Opus. A produção de câmara e sinfônica do compositor era bastante citada em histórias da música e, embora estivesse implícito que desconheciam o material criticado, os autores eram unânimes em afirmar que o excesso de obras significava comprometimento de sua qualidade. Tudo levava a crer que o mérito de Czerny estava apenas nos discípulos ilustres e no desenvolvimento da moderna execução do piano, o que já não era pouco.
     Na década de 1990 era impossível encontrar interpretações de Czerny à venda, mas anos depois, já nos estertores do compact disc, tomei contato com uma primeira gravação mundial de seus Op 627 e 698 para órgão e percebi que havia muito a ser desbravado ali. Em seguida descobri seu concerto para piano a quatro mãos e orquestra, cuja introdução me pareceu pomposa, esquematizada num modelo explorado à exaustão pelos vienenses. O interessante, porém, era que essa ênfase inicial logo arrefecia e, conforme se libertava da amarra, a obra ganhava riqueza e dinamismo. Czerny dominava a orquestra, e isso sobressaía; era muito imaginativo também, incorporava temas, instrumentação e referências as mais variadas. Nas peças seguintes que ouvi, suas sinfonias e variações, os estados de espírito evocados eram cosmopolitas, produto da liberdade que a música experimentava, mas sempre balizados em algum elemento da tradição. Sua música era ao mesmo tempo burguesa e aristocrática, pastoril e urbana. Czerny ia de Viena à Itália, da Alemanha à Espanha, e fazia isso com tal desenvoltura que você acabava envolto por aquela cultura pujante e heterogênea, primeira manifestação do que seria levado a cabo por seus discípulos Thalberg e Liszt.
     Talvez pelo lastro clássico e por não configurarem uma expressão definida do Romantismo, essas peças tenham sido preteridas em favor de criações mais características do estilo. Seus concertos para piano estão muito mais para Sturm und Drang do que para Chopin ou para os malabarismos de Liszt. Confrontados então com o que viria em Brahms e Tchaikovsky, são obras de ambição menor, mas em última instância a comparação é inadequada. O segredo da fruição de grande parte dessas criações está em jamais perder o foco na dimensão cultural e considerar que Czerny fala mais sobre a música de seu tempo do que com o íntimo do ouvinte. Em sua produção de câmara e sinfônica, a riqueza de referências empregadas tem equivalente no apanhado de recursos explorados em seus estudos para piano. Isso não deve ser tomado por frieza nem por superficialidade ou tecnicismo, e sim como referência inicial para o que será ouvido.
     Para uma avaliação mais justa, o juízo de seus contemporâneos também deve ser revisto. Critérios mudam e os que participam de processos nem por isso estão mais aptos a observá-los em profundidade. A fama angariada como professor e autor de livros de técnica pianística sem dúvida obliterou a produção enorme e em grande parte inédita de Czerny.
     Mas o que o mantém atualmente no ostracismo parece ser menos esse conjunto de avaliações críticas do que a união entre o conformismo do público e o declínio cultural das últimas décadas. É curioso afirmar isso, porque nos últimos 30 anos vivemos um fenômeno inédito de difusão de compositores pouco conhecidos. Temos hoje acesso a uma quantidade de obras como jamais se teve. Descobertas são anunciadas a todo instante, gravações são disponibilizadas, trabalhos são publicados. Essa difusão, porém, não é acompanhada por um cultivo pessoal. A facilidade de acesso fez com que a tarefa de se inserir essas obras num contexto e trazê-la para nosso imaginário pudesse ser eternamente postergada. Mesmo com o cenário favorável à mudança, continuam no repertório os mesmos compositores de sempre, as mesmas obras, as mesmas histórias, cada vez mais extenuadas pela saturação do ouvido e pelo mecanicismo a que se reduz a audição do já conhecido e previsto. É urgente, nesse sentido, a necessidade de renovação de nosso repertório próprio, aquele que sempre escutamos e que toca em nossa memória e coração, muito mais do que a renovação do repertório de orquestras e rádios dedicadas à música de concerto, que são sempre dependentes do gosto e da intenção de terceiros.
     Por no mínimo duas ou três décadas qualquer comentário sobre Czerny ainda será apenas esboço diante do que há para ser descoberto, relacionado e incorporado à noção que fazemos da história da música. Um recital com peças de Thalberg terá público menor do que outro no qual se execute Liszt. Anunciado um recital Czerny, os ouvintes desconfiarão que o intérprete, em vez de pioneiro, é um principiante. Mas alguém tem de tornar-se referência na difusão dessa produção. O esforço será nobre e o risco valerá a pena.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Bossuet - Discours sur l'histoire universelle


     Há alguns anos comprei um exemplar do Discours sur l'Histoire Universelle, do erudito e orador contemporâneo de Luís XIV, Jacques Bossuet (1627-1704). A edição é de 1875 e, conforme escrito na sobrecapa, foi adquirida em 1888 no Rio de Janeiro por um certo Sr.Cezário Soares Pinto.
     O volume está bem conservado para os mais de 140 anos de idade e tê-lo em mãos é, por si, motivo de satisfação. Chega a ser difícil acreditar que o exemplar é da época em que o Brasil vivia o Segundo Reinado. A Guerra do Paraguai havia terminado recentemente, surgiam revoltas contra a imposição do sistema decimal e a Lei Áurea ainda nem havia sido promulgada.
     O texto é entremeado por gravuras feitas a partir de telas célebres de Poussin, David, e de outros artistas que se tornariam menos conhecidos, como Eustache Le Sueur, Pierre Subleyras, Ary Scheffer e Pierre Gustave Eugene Staal. A qualidade da impressão é primorosa, o que justifica o antigo hábito de se destacá-las para embelezarem paredes, protegidas por vidro e moldura. Graças ao zelo do Sr.Cezário, as gravuras do exemplar permanecem no lugar onde sempre estiveram.
     "Dieu avait introduit l'homme dans le monde, où, de quelque côté qu'il tournât les yeux, la sagesse du Créateur reluisoit dans la grandeur, dans la richesse et dans la disposition d'un si bel ouvrage (...)", escreve o autor no capítulo XXV.
     O preço dessa história?
     Um Real.
   
     Eis o conjunto de gravuras:





quinta-feira, 21 de abril de 2016

Máscara Mortuária de Napoleão Bonaparte no Museu Histórico Nacional



     Nossos museus guardam relíquias nem sempre conhecidas pelo público. Muitas repousam durante anos, ou mesmo décadas, em reservas técnicas até que surja a oportunidade de serem expostas e contextualizadas por uma curadoria. Exemplo disso é o grande acervo arqueológico de peças da Antiguidade, trazido ao Brasil pela Imperatriz Teresa Cristina. Mantidas no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, apenas parte dessas preciosidades era exposta, até que, recentemente, mais exemplares do conjunto pudessem ser vistos e apreciados pelos visitantes da instituição.
     É evidente que nem todas as peças mantidas em acervos têm importância artística. Museus, afinal, são também responsáveis pela preservação de objetos genéricos, testemunhos de outros tempos, de ideias e modos de vida manifestos em formas e usos que pouco ou nada dizem respeito à linguagem da arte. Esses objetos, contudo, nos ajudam a compor um quadro mais amplo da visão de mundo de determinada época, por isso são preservados, por isso merecem atenção.
     Uma das curiosidades guardadas no Museu Histórico Nacional é a máscara mortuária de Napoleão Bonaparte. Assim que morreu no exílio em Santa Helena, no ano de 1821, o imperador teve as feições moldadas pelo médico inglês Francis Burton. Desse molde, foi tirada uma matriz em bronze por François Antommarchi, também médico, de onde saíram os exemplares em gesso existentes. Um deles, feito em 1833, é o que está no museu carioca.
     A prática da confecção de máscaras mortuárias remonta ao antigo Egito, quando as feições de governantes eram transpostas para o ouro. Foi somente durante a Renascença que se consolidou o costume de se preservar a imagem de pensadores e intelectuais. Exemplares como os de Torquato Tasso, Filippo Brunelleschi e Dante Alighieri tornaram-se célebres, ainda que deste último não tenha sobrevivido o original, apenas transposições para mármore. Mas se houve um século verdadeiramente pródigo na preservação da imagem de seus ídolos, este foi o XIX. Associações musicais por toda a Europa disputavam cópias das mãos de Liszt e Beethoven e as dispunham como em pequenos santuários; admiradores de Chopin escolhiam entre a máscara ou o molde das mãos do compositor, tirados pelo escultor Auguste Clésinger; bibliotecas e clubes literários encomendavam cópias das recordações mortuárias de Keats, Thackeray e centenas de outros autores da preferência dos associados.
     Como em todo comércio, falsificações também surgiam, tendo a mais notória sido a de Balzac. O mercado saturado e a constatação, no século XX, de que personalidades efêmeras como atrizes e socialites podiam se eternizar em gesso da mesma forma que gênios e imperadores levaria a uma desvalorização ainda maior dessas recordações. Mas os valores reequilibram-se com o tempo. Aprimoram-se os critérios de qualificação e a atenção volta a recair sobre o que de fato importa.
     Relíquias, como sabemos, envolvem episódios nebulosos, marcados por intenções nem sempre as mais nobres. A história do molde original da máscara mortuária de Napoleão é cercada de desventuras, tentativas de roubo e até mesmo de confisco judicial. Foi talvez graças à sorte que esse molde foi preservado e dele puderam sair exemplares como o que atualmente está no mais brasileiro de nossos museus.



segunda-feira, 14 de março de 2016

Museus Vazios


Uma tarde na Galeria do Século XIX do Museu Nacional de Belas Artes.

          No Rio de Janeiro, a maioria das instituições de arte tem entrada gratuita ou a preço irrisório, mas nem isso parece mais um atrativo. As pessoas preferem dar o ar da graça apenas a cada dois anos, para anunciarem em redes sociais que passaram uma hora na fila de alguma mostra noticiada como imperdível na tv.
          "Elas não foram lá para ver a Monalisa, mas para dizer que a tinham visto" - concluiu o crítico Robert Hughes ao analisar o fenômeno de fevereiro de 1963, quando um milhão e meio de pessoas enfrentavam dias de neve para um contato de segundos com a obra de Leonardo, no Metropolitan de Nova York.
          Antigamente a arte retratava êxodos e invasões. Hoje, já é capaz de produzi-los.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Nuvem de Peter de Cupere


     Raramente nos damos conta de que por trás de uma obra pode não estar nenhuma das idéias suscitadas por sua mera visualização. Raramente nos damos conta de que a consumação do propósito do artista pode acabar anulada pelo hábito de nos dirigirmos, de maneira automática, ao título e descrição antes da apreciação de seu trabalho. Às vezes a curadoria da exposição considera esses fatores e dispõe as informações num lugar reservado, por onde o visitante só passará após ter vivenciado a obra. Às vezes é o acaso que conspira a nosso favor. Nos esquecemos de cumprir o ritual e, sem a interferência de descrições ou títulos, acabamos tendo a experiência almejada pelo artista. Boas recordações, quando não planejadas, dependem sempre dessas peças que o destino nos prega.
     Talvez os hábitos sejam um entrave à arte. Talvez, pelo contrário, existam para mostrar que surpresas são importantes, que não devem ser vulgarizadas, e que se partíssemos do princípio de que algo nunca é o que parece ser, estaríamos no reino do caos. Não poderíamos alimentar expectativas, nem mesmo a de vê-las contrariadas. O mundo, ainda bem, jamais será assim, porque se algo se manifesta sob determinada aparência, é unicamente porque sua essência assim o permite. Logo, o que consideramos surpresa consiste na demonstração de um equívoco em que incorremos: o de condicionar a uma única essência uma aparência que pode ser a mesma para várias essências diferentes. Coisas diferentes nos aparecem sob a mesma forma a todo instante. Conclusões óbvias deixam de aparecer em nossos condicionamentos. É assim, é a natureza. E sabe-se lá o porquê.
     Diante disso, o importante é jamais esquecer que para que não tenham o impacto diminuído, algumas obras só devem ter o título conhecido após vivenciadas. Do contrário, serão apenas confirmações daquilo com que acabamos de tomar contato num texto. Já chegaremos prevenidos, com o espírito programado para determinada situação, e as possíveis surpresas serão anuladas. Portanto, se a obra aparenta guardar um segredo, o melhor é deixar para conhecer-lhe o título e a descrição após a fruição. Se, depois, as informações acrescentarem algo de novo, não percebido durante a fruição, basta voltar para fruí-la novamente.
     Pairando no ar, a nuvem do belga Peter de Cupere tem o interior acessado por uma escada. Uma luminária acesa demonstra que nenhuma ameaça espreita o fruidor. Nenhuma ocultação está em jogo. Nenhum susto lhe será infligido.
     À maior aproximação, comprova-se que, realmente, ali não há nada além de uma nuvem. Seu interior mostra-se vazio e a beleza sedutora da textura persuade à penetração para que a obra seja finalmente desvendada.
     A subida tem início mas, dois degraus acima, as mãos, antes desejosas pela participação na experiência, renunciam ao toque, obrigadas a concorrer para o equilíbrio corporal. O tato, sabe-se agora, não tomará parte no evento. A visão, também ela, começa a se mostrar pouco útil, pela perda da abrangência da totalidade da obra. A atenção agora volta-se apenas para o instante da entrada, nada mais.
     Já no interior da nuvem, se consumam a fruição e o momento máximo da obra. Visto de fora, o participante impõe-se como elemento outrora ausente da composição, enquanto que, dentro, descobre que não vivencia nada do que era esperado. O interior recende a fumaça e a experiência, até então prazerosa, transmuta-se num evento profundamente desagradável.
     Essa é a obra. Quanto mais ascendemos, mais descobrimos os desdobramentos ignorados de nossos atos. Mais renunciamos a desejos. A ilusão, a sedução, o fascínio pela beleza, são anulados quando estamos no cerne da realidade.
     Você pode questionar o uso político que se faz do ambientalismo. Pode discordar do alarmismo e da economia estabelecida em torno de diagnósticos apocalípticos. Mas a nuvem de Peter de Cupere não aponta culpados nem oferece soluções. Apenas refere-se a um fato que pode, inclusive, ser transposto em analogias para outros âmbitos da vida. O julgamento fica por conta de cada um.
     Nada mais contemporâneo. Nada mais tradicional. A arte, em seu sentido moral e pedagógico, é aqui atualizada na temática, na linguagem e nos meios de recepção; dirige-se ao indivíduo e o torna testemunha de uma experiência única.
     Peter de Cupere nasceu em 1970 e realizou as primeiras exposições de arte olfativa na década de 90.
     Smoke Cloud foi idealizada em 2013 e é composta de resina epóxi, madeira, metal, algodão sintético e aroma de fumaça. Seu diâmetro aproximado é de 2,60 metros.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Relações culturais Brasil-Argentina

Plaza de Mayo

     Numa librería anticuaria de Buenos Aires (as livrarias de usados, que chamamos de sebo), uma professora perguntava se havia títulos de arte brasileira à venda.
     "Não", respondeu o vendedor, num tom de quem raramente recebia obras do assunto.
     O diálogo prosseguia tímido, com o fato implícito de que nenhum dos dois sabia nada a respeito da produção brasileira.
     Enquanto conversavam, comecei a me dar conta de que eu também pouco sabia sobre a arte argentina. Conhecia muito vagamente a história de um ou outro monumento e  dois ou três escultores. Talvez fosse capaz de comentar algumas telas de Pueyrredon, Antonio Berni, o famoso nu de Eduardo Sivori, as batalhas de Candido Lopez, uma paisagem de Ballerini, os índios de Ángel della Valle e, dos modernos, Mac Entyre, Le Parc e Martha Boto. Mas tudo muito isoladamente, fora de um contexto.
     Na América do Sul existe esse desconhecimento mútuo. Pouco se sabe sobre a nação vizinha e, como as tentativas de aproximação cultural são perturbadas pela política, os que poderiam colaborar no incremento das relações preferem se dedicar a outra atividade.
     Mas quem deseja fomentar o interesse recíproco não deve mesmo se iludir. Basta circular por Buenos Aires para perceber que os valores cultivados pelos argentinos são bem distintos dos nossos. Lá, edifícios históricos são preservados, ao passo que aqui durante décadas foram tidos como sem importância justamente pelos que deveriam protegê-los. Lá não foi aberta apenas uma Avenida Central, como a do centro do Rio no período Rodrigues Alves e Pereira Passos, mas várias, mais largas, mais extensas e mais elegantes - e que continuam em seu estado praticamente original, com poucas alterações, ao contrário do que ocorreu aqui, onde verdadeiros palácios foram postos abaixo e substituídos por medíocres edifícios modernos.
     Caminhando por Buenos Aires, sentimo-nos numa capital nacional; no Rio, num lugar para onde se dirigem turistas em busca de praia. Buenos Aires, com toda a decadência econômica, permaneceu elegante, enquanto o Rio optou por tornar-se um caldeirão antropofágico. Não é preciso ser gênio para descobrir que o Rio não deixou de ser a capital com a transferência para Brasília. Muito antes, quando demoliam o primeiro edifício na Avenida Central, a cidade já abdicava do posto
     Na librería anticuaria separei os títulos de arte argentina à venda e programei uma visita ao Museo Nacional de Bellas Artes para a manhã seguinte.
     Chegando lá, descobri artistas que não conhecia e tomei contato com uma produção que negava idéias tidas como inquestionáveis no Brasil. Comprei mais e mais livros e revistas, tomei nota de outras exposições e por dias seguidos fui a galerias, ao Palais de Glace, aos Centros Culturais Borges, Recoleta, e vi uma arte latina que não circula entre nós: Linda Kohen, Vidal Lozano, Noemi Gerstein, entre tantos outros que passei a admirar.
     Até que a estadia chegou ao fim.
     No aeroporto, eu ainda rogava pragas à esculhambação brasileira quando me dei conta de que, com quarenta e cinco quilos de livros e ultrapassando em muito o limite de carga, haviam despachado minha bagagem sem que a tivessem pesado.
     Descobri então que os argentinos que eu tanto admirava por manterem uma capital linda deixavam pouco a pouco de querer parecer diferentes de nós. "Quem sabe aquela professora da librería também não vai ao Brasil e se apaixona por nossa arte?" - eu pensei.
     Mas a integração cultural já caminhava a passos bem mais largos.
     Na semana seguinte, Cristina Kirchner mandava demolir um monumento em frente ao palácio presidencial.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Busto de Villa-Lobos

     Anos atrás comprei numa loja de usados esse pequeno busto de Villa-Lobos. Já tinha visto de outros compositores, em metal, mas de nosso maestro e em biscuit para mim foi novidade. Não sei de quando é, e na assinatura lê-se apenas M.Braga. Uma inscrição na parte inferior da base também parece apagada.
     Gosto de olhá-lo enquanto escuto o ciclo de Choros e outras de suas peças, como o Noneto, a Floresta do Amazonas ou o Quarteto para sax, flauta, harpa e celesta. A experiência traz à tona algo que parecia esquecido em minha alma.
     Villa-Lobos criou obras que são a expressão máxima do que temos de único. Nelas, tradição e modernidade caminham juntas. Melancolia e entusiasmo se alternam; evocações simultâneas nos envolvem tanto por audácias num curto solo quanto por prolongadas e caudalosas massas orquestrais. Tudo isso revela a essência de uma cultura múltipla, diversificada e miscigenada. Tudo isso revela um espírito que, como reparava Debret já no século XIX, é de grande vivacidade, fértil em projetos e subjugado por desejos que rapidamente se sucedem.
     Na última década, à crescente disponibilidade de interpretações de Villa-Lobos na internet correspondeu uma diminuição de sua a presença nas salas de concerto. Hoje, raramente tenho oportunidade de ouvi-lo ao vivo e, como adepto de um culto proibido, promovo cerimônias domésticas ao som de antigas gravações.
     Diante do busto e insubmisso à destruição cultural do país, ouço os Choros imaginando o dia em que acordaremos do pesadelo. Será um amanhecer glorioso, passada a longa noite de terror. Por isso, diante do quadro melancólico é impossível não ser tomado por repentino entusiasmo. É impossível não se deixar levar pela vivacidade dessa música. É impossível não se tornar uma pessoa fértil em projetos, tão embriagadamente fértil a ponto de subjugar-se por desejos que rapidamente se sucedem.
     A música de Villa-Lobos oferece um vislumbre daquilo que o Brasil merece voltar a ser: um país com um amanhã. Porque revela o brasileiro que temos em nós.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Minha Professora


          Eu odiava minha primeira faculdade, mas adorava as aulas de História da Arte. Tive sorte de estudar com uma excelente professora, que realmente amava aquilo que fazia e reconhecia a importância da arte para a formação humana. Graças a ela decidi que dedicaria minha vida ao assunto.
          Ainda me lembro em detalhes das imagens das catedrais de Chartres e Amiens que ela projetava na parede. Ainda me lembro perfeitamente de sua voz, cuja fragilidade acrescentava dimensões espirituais a tudo o que dizia.
          Eu já tinha abandonado a faculdade e decidido consagrar alguns semestres a outros estudos quando um dia quase atropelei minha professora. Ela certamente teria morrido; a idade avançada não teria permitido que sobrevivesse ao impacto e aos ferimentos.
          Foi num centésimo de segundo que decidi abrir a curva da bicicleta, já que alguém poderia sair de uma portaria que eu até então não havia notado.
          Aquele instante tem para mim a duração da eternidade.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Daniel Arsham - Três Telefones Públicos Erodidos


Três Telefones Públicos Erodidos, 2014 cinza vulcânica, vidro moído e Hydro-Stone

          Objetos resgatados em escavações são capazes de elucidar um universo de relações sociais extintas. Soterrados, seguiam seu gradual rumo à decomposição até que tiveram a trajetória interrompida e retornaram ao contexto humano, sob novo propósito. Transformados em testemunhos de outras eras, de outros povos e concepções de vida, têm na oxidação e desintegração um valor que expressa o abandono pelo homem e o processo de reconquista de sua matéria pela natureza.
          Cada matéria possui um tempo específico, uma duração própria, baseada em sua composição e resistência aos ataques sofridos. E sua deterioração está intimamente relacionada a essa escala temporal. Quando há uma interferência nessa escala, recorremos aos instrumentos disponíveis para a decifração de sua causa.
          Telefones públicos em uso ainda havia pouco mas erodidos como se encontrados num sítio arqueológico representam a imposição de um tempo à matéria que não corresponde ao estabelecido pela natureza. A decomposição já não decorre de sua escala própria, mas é uma figura de linguagem, pertencente às relações do homem com aquilo que esses objetos para ele representam.
          A cada dois ou três anos, transformações tecnológicas fazem de nossos hábitos algo ultrapassado. É como pessoas da pré-história que passamos a ver aquilo que um dia fomos. Mudanças na tecnologia nos impõem mudanças de costume e ao olharmos esses telefones percebemos a radical inversão ocorrida em nossas vidas nas duas últimas décadas.
          Se um artefato de uso público era usado para a comunicação individual, hoje um equipamento de uso individual é usado para tornar pública nossa comunicação. Falamos mais ao público que para indivíduos. Temos livre acesso ao espaço alheio e ao mesmo tempo não sabemos se somos ouvidos no que transmitimos. Descartamos a comunicação recebida e temos descartado aquilo que comunicamos.
          À obsolescência de um meio se sucedeu a obsolescência de um valor e nossa privacidade tornou-se mero detalhe no conjunto das novas relações humanas da mesma forma que telefones hoje em dia são apenas uma função entre as inúmeras de um aparelho levado no bolso.
          Telefones públicos erodidos demonstram que, ao se generalizar, a comunicação humana atinge o paroxismo.
          Porque a satisfação do anseio por tudo comunicar conduz inexoravelmente o indivíduo à obsolescência de si.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Verdades de fachada



          Uma fachada esconde verdades às vezes inconfessáveis.
          Edifícios envidraçados ou revestidos por placas metálicas se impõem como prismas na paisagem e atendem aos anseios por projetos de aparência futurista. São leves e de fácil montagem. Em vez de uma espessa parede de tijolos, recebem elementos pré-fabricados, aparafusados nas lajes dos andares. Em vez de operários para a execução de emboço e pintura, requerem técnicos e uma empresa fornecedora de maquinário próprio.
          Não há segredo nisso.
          Mas quando comparados a esses prismas, os edifícios de fachada com peitoris e janelas deslizantes oferecem enorme desvantagem devido a um terrível mal de que padece nossa cultura. Com o tempo, cada proprietário acaba responsável pela manutenção de suas esquadrias e as substitui por elementos de outras características. Nas janelas, pouco a pouco são instaladas películas de cores contrastantes e em diferentes lugares brotam aparelhos de ar condicionado, nas mais variadas dimensões e modelos. Administradores de condomínios tentam pôr ordem nas coisas. Cobrem os equipamentos com caixas uniformes e estabelecem uma prumada a ser obedecida por todos, mas raramente conseguem evitar o descumprimento da norma.
          Ao conceberem um edifício, arquitetos devem considerar as dificuldades em que esbarrarão os responsáveis por sua manutenção. Devem prever o pensamento que os usuários terão ao se depararem com escolhas a serem tomadas diante da necessidade de uma intervenção. Devem ter em mente que entre a preservação de seu projeto e uma alternativa de menor custo, o dinheiro e o desconhecimento falarão mais alto.
          Apesar de criticados pelo excesso de simplicidade, prédios com sistema de refrigeração central e fachadas vedadas mantêm-se íntegros, ao passo que, com o tempo, os demais sofrem descaracterizações que lhes conferem mau aspecto.
          Empresas sofrem avaliações subjetivas. Clientes as associam ao edifício onde estão instaladas, mas edifícios são, na realidade, produto dos valores em voga na sociedade, principalmente nas marcas nele deixadas por seus ocupantes. As concepções do proprietário de um escritório sobre o que seja uma obra arquitetônica são diferentes das de seu vizinho e decisões de uma assembléia não passam a ser boas por terem sido tomadas pela maioria.
          Arquitetos são bem sucedidos quando compreendem essa relação de conspirações cruzadas. E entram para a história quando provam que outra equação é possível.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O fim da CosacNaify



          A notícia, que passa despercebida em tempos de turbulência política e econômica, é uma verdadeira bomba para a parcela ínfima dos que se dedicam à cultura. A Cosac Naify fecha as portas e 2016 começará mais pobre, sem a melhor editora de arte do país.
          Em breve serão raridade as publicações dessa equipe conhecida pela escolha primorosa dos tipos, do papel, da diagramação, mas que realizou uma façanha ainda maior em termos técnicos no mercado nacional: reproduzir obras sem distorção de cores e proporções, com boa resolução e sem cortes.
          O apuro gráfico e estético, claro, é valor agregado, porque o principal motivo de satisfação por sua existência foi desde o início o fato de preencher lacunas na bibliografia em língua portuguesa. Pegue a relação de livros exigidos por um curso superior de arte americano ou europeu e tente encontrar edições em português. Se você achar dez por cento, levante as mãos para o céu. O Brasil está quarenta anos atrasado na área.
          Editoras nacionais precisam se reinventar nesses tempos de crise e decadência generalizada. Um livro é um produto e, como qualquer produto, deve custar aquilo que as pessoas estão dispostas a pagar. Os da Cosac são caros, mas atendem às expectativas - o que é difícil por aqui. Quem compra, adquire um hoje, outro no mês que vem, espera promoções e no final tem uma prateleira só deles.
          A cultura independente no Brasil sempre foi atividade paralela. O sujeito vive de outra coisa e banca com recursos próprios o estudo e divulgação daquilo que valoriza. Isso é válido tanto para quem produz quanto para quem consome. Quando a fonte seca, o processo é suspenso.
          Mas a efemeridade dos projetos culturais não depende apenas da explicação econômica. A maioria das pessoas acha normal gastar 100 Reais num almoço e considera caro pagar 50 num livro. Também cansei de descobrir que meus exemplares tinham sido emprestados a gente que troca de automóvel a cada dois anos mas julga desperdício ter uma estante em casa. As dezoito primaveras do meu carro me proporcionam uma biblioteca cada vez melhor.
          Sim, me arrependo de ter ajudado, sem saber, montadoras e restaurantes, em vez de editoras que fazem alguma coisa pela cultura. O fechamento da Cosac me fez reavaliar isso. Agora só empresto a quem realmente precisa.
          Outro grande problema do mercado é o de que mesmo quem não pensa por cifrões gastronômicos e automobilísticos, na hora de comprar livros esbarra na total falta de hierarquia para a escolha. Arte no Brasil se transformou em assunto exclusivamente acadêmico. Não há uma cultura de arte fora do ambiente universitário e o sujeito que não faz uma pós-graduação ou mestrado fica completamente à margem do assunto: chega na livraria, olha os títulos e não faz idéia de onde inseri-los num contexto. Não sabe a importância ou não de cada um.
          Um editor de livros de arte precisa se adequar a essa realidade, do contrário sua experiência será efêmera, por mais qualidade que tenha seu trabalho.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Um dia na Catedral da Sé, em São Paulo



          Naquele 5 de Setembro, tendo saído do metrô na estação Liberdade, caminhei pela avenida até que pela primeira vez avistasse a Catedral da Sé. A enorme cúpula chamava a atenção, imponente, e o volume diferenciado destacava o edifício do conjunto arquitetônico, fazendo com que os olhos abandonassem a paisagem ao redor.
          Foi essa minha primeira impressão. Eu meditava então sobre o sentido de uma cúpula inserida na composição gótica. Concessão do arquiteto alemão à tradição latina? Homenagem à colonização italiana da cidade? Ou simples licença do ecletismo historicista em voga no início do século XX? Eu ainda meditava sobre esse tema quando me dei conta de que já havia contornado o templo, subido a escadaria, e agora me deparava com um portal cujas figuras naturalistas contrariavam a expectativa por imagens longilíneas, como as da Europa.
          Internamente é uma bela catedral, embora não impressione pela extensão das naves. Apesar de também deixar a desejar em pormenores como os capitéis, curiosos, mas de fatura esquemática, é bem proporcionada e elegante. O transepto, coberto pela cúpula, mantém coerência tanto em sua verticalidade quanto na luminosidade oferecida a um coro em nada influenciado pela linguagem barroca. Essencial à apreensão ascensional do espaço, essa austeridade teria sido anulada caso a arquitetura tivesse recebido a sobrecarga ornamental tão cara à nossa cultura.
          A partir de uma capela lateral, próximo à descida para a cripta, os tubos do órgão podem ser vistos circulando a galeria à maneira de um deambulatório. As colunas entre as naves transmitem a noção de peso própria às construções do estilo - noção que, ao contrário das obras originais, permanece à medida que o olhar se eleva em direção à ogiva dos arcos. As portas laterais, de aspecto leve, parecem inconformes à massa estrutural.
          Essas são pequenas ressalvas, que em nada prejudicam o interesse despertado pelo conjunto. Os vitrais, tornados discretos pela claridade refletida na brancura das paredes, nem por isso passam despercebidos. São variados, heterogêneos, e produzidos de acordo com os velhos modelos europeus, tanto em cor quanto em proporção, concepção temática e execução.
          Se a experiência não equivale na totalidade ao impacto de uma catedral européia, é bastante diferente da vivenciada nas igrejas brasileiras de matriz barroca. A racionalidade da estruturação espacial provoca estranhamento a quem está acostumado ao arrebatamento, fusão e interpenetração das artes da contra-reforma. Mas mesmo para quem estiver menos movido pela religião do que pela arquitetura, será fácil evocar um estado de alma mais próximo ao nosso. Basta posicionar-se sob um dos arcos, na diagonal, abarcando com o olhar os demais componentes das naves laterais, tendo ao fundo os vitrais e, na parte superior, elementos luminosos capazes de estabelecer analogias com o firmamento e a luz divina.

Quando se observam essas naves laterais, mais estreitas, desde o fundo, a perspectiva impede que se veja a principal, o que proporciona a esperada experiência da verticalidade. Inserida numa contínua moldura de colunas, a figura humana parece misteriosamente pequena, ao mesmo tempo envolta e ecoada em suas proporções pela catedral.

          Com relação à fachada, além da singularidade da cúpula também é notável a altura da escadaria, sem dúvida fruto do terreno em desnível, mas que confere, sobretudo, monumentalidade à edificação. A elevação com relação ao nível da praça também a preserva para futuros aterramentos urbanos, um problema enfrentado pelos monumentos projetados para durarem séculos.
          Foi essa minha impressão da Catedral da Sé.
          Mas naquele 5 de Setembro desci a rua sem saber que algo mais estava para acontecer. Mal a experiência se esvaía em novos pensamentos, um homem rendia uma fiel e a levava sob a mira de revólver até a escadaria, diante da praça. Cercado pela multidão, matava um mendigo que tentava libertar a refém e, em seguida, acabava também morto por uma tempestade de balas disparadas pela polícia. Os corpos estendidos e o sangue na escadaria lembravam a saga humana sobre a terra: o anseio pelo sentido da vida, a eterna luta contra o mal e a necessidade de sobreviver em meio às agruras e crueldades que horrorizam a civilização.
          Quis o destino que momentos antes eu visse na imagem de um homem ajoelhado a "figura humana misteriosamente pequena, ao mesmo tempo envolta e ecoada em suas proporções pela catedral".
          Eu não sabia, mas aquele era o criminoso.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Para além da saudade

Cinema Caruso, 1983 - Av. N.Sra de Copacabana, altura do Posto 6
Publicado no Jornal Copacabana, edição 243 
    
    Todos nós temos boas lembranças do bairro onde nascemos, e a Copacabana que conheci 30 anos atrás já começa a parecer bem diferente da atual. Não digo melhor nem pior, apenas diferente. Isso porque a vida passa e com ela mudam hábitos e gostos; mudam os lugares que frequentamos, mudam vizinhos e conhecidos. No lugar entram novos amigos, novos costumes, novas lojas, desejos e interesses. E do que passou ficam recordações e saudades.
          A Copacabana de trinta anos atrás era um bom lugar para se viver, mas ainda não tinha equipamentos urbanos hoje considerados básicos. Não havia ciclovia na praia nem iluminação noturna na areia, e quem quisesse andar de bicicleta precisava pedalar sobre o calçadão, entre idosos e carrinhos de bebês. Era preciso cuidado para não atropelar nem o sorveteiro nem os turistas, que insistiam em acreditar que frearíamos para dar passagem. Quando deixamos o saudosismo um pouco de lado percebemos o quanto a ciclovia difundiu a bicicleta como hábito mais ordenado e seguro, fazendo com que tantos abraçassem a ideia de que era bom curtir a praia sobre rodas.
          Na Copacabana de 30 anos atrás não havia metrô e onde hoje está a estação Siqueira Campos existia o antigo Posto de Saúde. Improvisado numa construção quase centenária, seu contraste com os prédios modernos deixava o ar carregado de reminiscências da primeira ocupação do bairro. Para completar o bucolismo, em época de vacinação um conhecido vendedor de balões aparecia com variado cardápio de algodão-doce. Dependendo de como haviam se comportado na hora da injeção, as crianças podiam escolher entre as opções oferecidas. Mas isso, infelizmente, não era regra. A década de 1980 foi a das vacas magras e, para a maioria, o docinho que não pesava nada no estômago pesava muito no bolso.
          Ao lado do Posto de saúde, o Batalhão da Polícia contava com excelente corneteiro. Durante o dia, ele fazia a chegada do comandante e da troca da guarda serem ouvidas à distância. Os toques eram tão parte da paisagem sonora a ponto de uma das diferenças mais notadas pelos moradores, no período das obras do metrô, ter sido o fim de suas atividades. Nas festas e comemorações também era costume a execução do Hino Nacional pela banda da corporação, e também de outro, belíssimo e hoje pouco lembrado, o da Polícia Militar. Às vezes ocorriam desfiles, os soldados marchavam ao redor do quarteirão, e ainda há quem se lembre do dia em que, para a satisfação de todos, a banda tocou por horas seguidas, sob aplausos dos moradores nas janelas dos edifícios.
          A Copacabana de trinta anos atrás também era um bairro de lojas mais simples, com luzes fluorescentes, paredes brancas e estoque à mostra. O comerciante encomendava placas de vidro, prendedores de plástico e montava ele mesmo as prateleiras e balcões. Nos meses quentes, oferecia como refresco ventiladores de teto ou fixados à parede, já que poucos estabelecimentos contavam com ar condicionado. O calor era bastante comum nas lojas, mas como fregueses e funcionários se conheciam de longa data, a conversa desviava a atenção da falta de conforto durante as compras.
          Nessa Copacabana também não existia a praticidade do restaurante a quilo e o almoço era mais demorado, sempre escolhido no cardápio e servido pelo garçom, independente do grau de sofisticação da casa. Tomar o café da tarde também era um programa bem diferente, pois as atuais cafeterias com variados brownies, tortas e pannes de chocolate não passavam de uma ideia distante. Havia, sim, ótimas lanchonetes, que serviam mil-folhas, sonhos, bombas pretas e brancas, e havia também o velho e popular balcão do bar. Para os mais abastados, os hotéis ofereciam buffets, mas na maioria das vezes tomava-se café em casa mesmo, com os avós, tios e amigos, costume infelizmente perdido.
          É, os tempos mudam e Copacabana era definitivamente outra. Amamos vê-la em antigas fotografias, mas não abrimos mão da internet para compartilhá-las. Amamos recordá-la, mas gostamos da ciclovia, da praticidade da comida a quilo, do metrô, das novas lojas e cafeterias. Aos que amam demais o passado, vale lembrar que precisamos viver bem o presente para que se torne a boa recordação de amanhã. Assim, desfrutemos a vida de hoje, o máximo que pudermos, na Copacabana que ainda existe para além da saudade!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A Casa de Pedras

A última casa residencial da Av. Atlântica
foto: Jornal Copacabana
Publicado no Jornal Copacabana

     O funcionário abriu o portão e vi que era verdade. A casa de pedras da Av. Atlântica havia sido demolida. Dava pena ver os escombros. Parte do interior ainda estava de pé, exposta aos curiosos que rodeavam a entrada. Todos comentavam o fato. Falavam de valores, do projeto de um luxuoso hotel e da incorporadora que levaria a obra adiante.
Para mim aqueles assuntos pouco interessaram, porque naquele instante lembrei que quando era criança e voltava da praia com minha mãe sempre passávamos ali em frente. Inventávamos histórias sobre os moradores, sobre novelas e filmes gravados nos jardins, e sobre um salão repleto de objetos do Rio antigo. Era tudo fruto da nossa imaginação, é claro, mas como era gostoso acreditar por uns instantes que era verdade! A vida adquiria um encanto que só as crianças são capazes de experimentar.
A casa, como os anos me ensinaram, não tinha muita importância. Mesmo sendo a última residencial da orla e tendo o curioso revestimento de pedras, era desajeitada, quadrada, e destoava do conjunto. Mais cedo ou mais tarde seria demolida para dar lugar a um empreendimento lucrativo, conforme a ordem natural das coisas.
          Na semana seguinte à demolição, vi sair do terreno um caminhão com entulho. Me aproximei e percebi que um solavanco havia derrubado na calçada alguma coisa que não pude acreditar. Aproveitei a distração do porteiro que cuidava da obra para pegar a pequena relíquia: o pedaço de uma das pedras da fachada. Eu precisava ter comigo um pouquinho daquela história que não era apenas dos antigos proprietários, mas também do bairro, também minha, da minha vida.
  A pedra da casa de pedras está hoje sobre a mesa de minha sala, num lugar de destaque. As visitas sempre tiram fotos e gostam de ouvir o relato do episódio. Ter um pedacinho da história do bairro diante dos olhos mexe muito com a imaginação e faz a vida adquirir de novo, pelo menos por uns instantes...aquele encanto que só as crianças são capazes de experimentar.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Arte para a campanha de Barack Obama

Franke - Hope - aquarela e acrílica sobre papel

    A inteligência tirou férias; levou a consciência embora. O senso do ridículo arrefeceu e do alto, pairando sobre nossas cabeças, surgiu ele, o Grande Iluminado. Ele vela por nós, dia e noite. É o novo Deus, que medita sobre a Terra. Ele traz paz, simbolizada por pombas brancas. O rosto na penumbra culmina em luz que banha a testa salpicada de veias. Ele é sereno, mas tem viço. Ele é a força, a única força, porque não há mais indivíduos senão ele. O resto é a comunidade, a comunidade global. O mundo repete em coro o novo mantra: esperança...esperança.
          As férias acabaram e você descobre que esperança por si só não significa nada. Cada um preenche o slogan com o que quer, seja com a volta da ex-namorada, seja com a baixa no preço do combustível, com a cura da doença, a cessão de Israel aos palestinos ou o afastamento do filho das drogas. Cada indivíduo tem um conjunto de anseios subjetivos que são abarcados pelo lema capcioso.
          Apesar de aspirações individuais serem divergentes (alguém duvida?) a armadilha funciona porque o absurdo só é percebido depois, no confronto com a realidade. Ela captura pelo desejo de revanche: a crença de que um homem representaria, no poder, frustrações relegadas aos porões da psique. Obama era a realização do sonho, qualquer um. Obama era o garantidor do revés e, como em todo revés, o homem acaba escravo de quem o vinga. Diante do torpor da razão minha única esperança era o antídoto para essa lógica sórdida: a de não ser objeto da esperança alheia. Se eu desse meu voto, ele resolveria o problema?
          De plantador de árvores a restaurador dos valores nacionais; de reencarnação de Lincoln a porta-voz da Era de Aquário; de congregador das raças a mesmerizador das crianças do mundo, Obama chegou à presidência vendido como herói polivalente, multifacetado. Nem era preciso ser americano ou votar nos EUA para colher os frutos de sua vitória. Bastava a tal esperança que ele ia fazer acontecer, mudar a vida para melhor. Era só acreditar na palavra, entrar na onda, sentir o clima, pensamento positivo. Não haveria mais guerra, essa invenção dos fascistas brancos. Não haveria mais competição, essa invenção do capitalismo selvagem; só responsabilidade, aceitação, prosperidade, alternativas e saúde pública, novos mantras do século XXI.
Aniekan Udotio - Here - acrílica sobre
 telaFlashback catártico, com Luther 
King, Tommie Smith, John Carlos, 
coroas, crianças e pombos.
          A manipulação da face obscura do individualismo é a chave de interpretação para o estado das coisas. Não fosse o apelo à fraqueza do sujeito isolado, Obama não se tornaria o fenômeno que se tornou. A esquerda soube tirar proveito disso no mundo inteiro graças a um processo de décadas. Enquanto a direita se preocupava com trabalhar para pagar as contas, enquanto papai e mamãe se apavoravam com os mísseis de Cuba e  Moscou, com as guerras da Coréia, do Vietnã, com Maio de 68, com a maré vermelha e o cabelo comprido do filho, enquanto isso tudo acontecia pessoas humilhadas objetiva ou subjetivamente por serem gays, perseguidas objetiva ou subjetivamente por serem de grupos étnicos e religiosos minoritários, por odiarem o ensino religioso, por curtirem um baseado de vez em quando, indivíduos sem preparo que caíam de paraquedas nas escolas e universidades achando que teriam um ensino limpo e oportunidade de crescer na vida - essa gente toda era amealhada pelo já aparelhado mainstream intelectual e midiático com o discurso das minorias oprimidas. Junte as minorias, você forma a maioria e toma o poder, simples assim. Deu certo. A direita perdeu.
          Não sou norte-americano nem pretendo pedir asilo em Miami, pelo menos por enquanto, embora admire tudo o que os EUA representam em termos de liberdade humana. Também não digo que a eleição de Obama tenha sido boa ou má, nem que os americanos tenham se livrado com ele do ódio despertado por Bush ou que tenham embarcado em canoa furada. O episódio de espionagem global pela NSA é um bom catalisador de discussão, mas minha pretensão não vai além de diagnosticar na arte a manifestação desse estado psicológico bastante peculiar para a maior nação do planeta. Houve uma época em que a esquerda americana fundava museus, levava a arte para frente, transpunha barreiras. Houve uma época em que Pollock mijava em lareiras e zombava do formalismo europeu, que Rothko virava as costas para tudo e para todos, que Warhol regurgitava o imaginário popular transfigurado em obras emblemáticas. Esse tempo passou e os caretas agora são outros. A esquerda olha para fora e para trás, para os sentimentos toscos e pueris dos subdesenvolvidos; vai buscar no cartazismo latino-americano e sino-soviético a linguagem que promoverá a mudança, seja ela qual for. A mensagem é clara: a América deve apostar no delírio Obamista com a mesma candura que camponeses do terceiro mundo se prostram ante o líder carismático, pai do povo, Robin Hood vermelho, foice e martelo cravados no peito do opressor.
Date Farmers - Cambio: O
Founding Fathers voltariam
para a Inglaterra
          Apesar dessa baboseira toda, há oposição nos EUA, eles não são o Brasil. Já em 2008 Simon Schama, o historiador queridinho de American Future e Power of Art, depois de uma de suas performances em que considerava épica a vitória de Obama, levou uma paulada ao vivo do republicano John Bolton e ficou calado. A contagem dava vitória técnica ao democrata e o enfant terrible da esquerda se exaltava quando ouviu em plena BBC que estava querendo escrever a história antes dos fatos. Assisti o debate e foi constrangedor ver o até então rei das sacadas progressistas gaguejar ante a afirmação de que o triunfo eximiria os EUA das acusações de pátria racista. Ele, que sempre tirava coelhos da cartola, foi do circo à realidade em 5 segundos. Também engoli em seco.
          Mas a oposição precisou se acostumar cada vez mais a meios alternativos, programas independentes de rádio e internet, já que nas últimas décadas a grande mídia foi se colocando descaradamente a favor dos democratas. Tão a favor a ponto de na eleição anterior atacar Bush até pelo beijo forçado na mulher durante a convenção partidária. Foi falso mesmo. Enquanto Obama era poupado. Imagens de Michelle o agarrando como Bush jamais sonharia rodavam o mundo e também acabaram virando "arte". Era tripúdio em cima de tripúdio. Obama tinha um passado impecável, era feliz no casamento e ainda por cima contava com proteção por todos os lados. Essa era a alma do negócio. Ele não precisava se defender de nada, tinha à disposição hordas raivosas para acusar algum incrédulo de preconceituoso, teórico da conspiração, de não ter esperança, até que terminassem com a confiabilidade do desgraçado. Na pátria da reputação ilibada muita gente se intimidou. Eu me lembro que na tv só se via documentário sobre homens grávidos, crianças que trocavam de sexo e plantações caseiras de maconha. Ninguém podia falar nada. Você absorvia progressismo o dia inteiro, era um negócio forçado. Eu atravessava um período reacionário e abandonei a tv. Ainda não retomei.
Shepard Fairey - Obama Hope Stencil


Puxa-saquismo de cima a baixo


          Na esquerda existe uma disposição para o ativismo que a direita está longe de conceber. Na direita o sujeito perde, é dispensado com um cheque sem fundos e um "Vai procurar outro chefe, imbecil." Na esquerda, não. O camarada continua lá, trabalha de graça, voluntário, depois é chamado, recebe encomendas, tem o nome incensado e fica rico quando as coisas dão certo. O caso de Shepard Fairey é emblemático. Depois que mandou o projeto de cartazes para o Partido Democrata virou celebridade internacional, até em Copacabana apareceu um pichado. Bastava entrar no site, imprimir o arquivo, recortar o papel e estava pronto o estêncil da campanha. Enquanto a direita não aprende o funcionamento do jogo, talentos vicejam só do outro lado. No Brasil então, as coisas são ainda piores. Não conheço nenhum conservador que incentive artistas. É tudo comprador de antiguidades.
          O proselitismo estava por toda a parte. Até Arthur Danto dedicou o ensaio biográfico de Andy Warhol a Barack e Michelle Obama e o fututro da arte norte-americana, matando três coelhos na mesma cajadada: o panfletário, o feminista e o da manutenção da crença de que só existe arte na esquerda. Mas Danto é inteligente no que faz. Pode não ter um décimo da originalidade que computam, mas quer ser lembrado como teórico e historiador da arte sério, e nisso tem competência. Você joga fora a instrumentalização e nem sente a diferença.
          Já o panfletarismo barato é o botão de descarga da consciência. A quase totalidade das obras criadas para a campanha de Obama sequer seria creditada como arte se estivesse a serviço do Partido Republicano, da candidatura de Sarah Palin ou do xerife de um condado qualquer. No máximo seriam tidas por brincadeiras chulas, trocadilhos publicitários apelativos ao sentimentalismo popular, meros caça-votos. Dariam ótimos grafites em muros do Bronx, em galpões de Detroit ou nas pilastras de uma autoestrada em Los Angeles (Shepard Fairey, o autor do cartaz Hope, é artista de rua), mas como estavam a serviço da esquerda chique, deixaram de ser patacoada eleitoreira para acabarem alçadas à categoria de renovadoras da arte americana. Foram institucionalizadas da noite para o dia, logo apareceram em museus e galerias sob o contexto de Manifesto da Esperança e ganharam o lustre da teoria acadêmica. O mainstream é assim. Os herdeiros copiam a a estrutura, o funcionamento do sistema que receberam, mas já não têm a alma desbravadora dos antepassados. Quando o republicano Schwarzenegger foi a uma dessas exposições Manifesto da Esperança, acharam que era invasão de território. No Brasil, visitou antiquários em Copacabana. Absorveu os preceitos locais.
Judy North - Barack and Michelle - aquarela


Sonhos da noite passada


          Um dos approaches da campanha de Obama foi desde o início o revival sessentista e setentista. Eleito, ele teria uma espécie de mandato post-mortem de Kennedy, seria um Jimmy Carter mais seguro, confiável, com a vantagem de ser negro e ter o discurso atualizado.
          Os conservadores tendem a criticar essa obsessão dos progressistas, como se atacando os anos 60 conseguissem desmerecer a antiguidade clássica da esquerda vigente. A azia é insuportável, mas não adianta, é preciso dar um fim à ruminância de 50 anos, e isso só com digestão. É preciso deixar que ocorra. Na arte atual só se vêem derivados da época: de um lado, conceitualismos e a assepsia minimalista, de outro o discurso orgânico do culturalismo, o poder catártico do grito primal, energias pé-na-terra, ambientalismos primitivistas - às vezes tudo fundido e misturado.  É claro que isso é uma generalização, mas o campo onde as coisas estão é basicamente o mesmo. Depois de uma onda clean, nos anos 2010 voltaram à moda as bocas-de-sino, a armação grossa para os óculos e cabelo volumoso. Não tem jeito. É preciso expurgar, deixar vir o último suspiro daquela época. O futuro chegou e como não viramos hippies nem exploradores do espaço, testemunhamos o veranico. Obama representa o fim dos anos 60. Depois, só restará partir para outra.
          Enquanto isso, vai sendo difícil explicar para quem está na faixa dos 20 anos e já vota mas confunde as coisas que os Beatles não eram música para nerds e que o penteado da época não tem nada a ver com emos. É difícil fazer entenderem que o Sargent Pepper não é apenas um boneco fofinho e que psicodelia era fruto de ácido lisérgico, não de programas de computador. Hoje todo o mundo acha que ser um Rolling Stone é vestir camiseta da banda e ir passear no shopping, em vez de ter a mesma liberdade que Mick Jagger tinha, nutrir identidade própria, ter tino empresarial, mente aberta, criativa, e ousadia para fazer a vida. Os rebeldes atuais estão na direita; os da esquerda são burocratas domesticados.
Michael Cuffe -
The Hopeful Hearts Club -
técnica mista sobre tela
Alô! O Timothy Leary está?
          Na cabeça do cidadão comum também é difícil entrar a idéia de que existem valores para além dos econômicos. As grandes cidades estão a cada dia diferentes, empregos mudam, lojas abrem e fecham, produtos surgem e desaparecem no mercado, vizinhos são verdadeiros nômades, reféns de bolhas e especulação imobiliária. Executivos de corporações pouco se importam com a guerra ao terror, com a moral cristã por trás da negação ao casamento gay, com operações militares no Afeganistão e tempestades em desertos que nem sabiam que existiam. Na maioria das vezes nutrem uma visão empresarial do mundo. O que querem é ascender na carreira, ganhar dinheiro e curtir a vida, sem perder tempo com lucubrações da análise cultural.
          O discurso de Obama atendia a esse estranho arranjo de tensões entre dinamismo e paralisia, rebeldia e acomodação, idealismo e pragmatismo da vida contemporânea. Quem iria garantir uma solução para isso tudo? O Estado, é claro. Nada melhor do que reclamar, se fazer de vítima de algum ente genérico, do sistema, da sociedade, de ódios passados, e ganhar entre outros benefícios o selo de autenticidade estatal e o direito de ofender quem paga a conta. A culpa é sempre dos outros. O engajamento político mascara a falta de objetivo na vida, canaliza a frustração. Sentir-se integrante de um projeto coletivo, de um contingente que prega a tal esperança, é um alívio para a angústia da existência. (Meu interesse pela escultura de Ron Mueck vem daí. Ele retrata esse mesmo tédio metafísico, a mesma solidão idiota, o mesmo sentimento de vazio sem me empurrar a esperança fajuta. É crítico mas não é instrumentalizado, pelo menos até a data em que escrevo.)
          Mas afinal, onde quero chegar? É bastante simples. A arte para a campanha de Obama precisava cafetizar a antiguidade clássica da esquerda de qualquer jeito. Avós precisavam se comover, precisavam se lembrar de quando eram mocinhas nos anos 60, para convencerem o neto a votar no democrata. A juventude entediada pelas benesses do capitalismo precisava acreditar que finalmente se apoderaria da narrativa gloriosa do é proibido proibir, do sex lib idealizado, para poder subjugá-la à sua própria caretice reivindicatória pós-moderna. A contestação na marra dos Panteras Negras, dos atletas olímpicos de punho cerrado, o autoritarismo por trás do cartazismo socialista terceiro-mundista, os roqueiros mortos de overdose, tudo isso precisava ser filtrado, higienizado, para agradar ao público em geral e ninguém se sentir amedrontado ou ofendido. Qualquer demonstração de força individual precisava ser meticulosamente retrabalhada, já que o rebanho ama ídolos e odeia indivíduos. O resultado precisava ser um "Que bonito!" de quem estivesse vendo as imagens sem perceber que o novo Deus, o Grande Iluminado que vela por nós dia e noite, era retratado sempre olhando para a esquerda.
          Enfim, isso tudo é propaganda, engenharia de comunicação. Se as idéias para essas obras tivessem partido de uma visão autêntica e verdadeira, de uma renovação coletiva do estado de espírito, de uma pujança intelectual, e não de um processo de construção de um personagem, teriam florescido também em outras artes. Teriam dado origem a muita música boa, como deram em São Francisco, Woodstock e Monterey. Mas fora a meia dúzia de cartazes, o resultado cultural da empreitada foi nulo, porque os partidários de Obama revisitavam a estética dos anos 60 mentirosamente, como se a submissão da arte ao poder institucionalizado não representasse a negação mesma dos ideais libertários a que a produção da época se referia. Obama ganhou, e a arte não levou.

Larissa Marantz - Unite America -
  
acrílica sobre tela
Cidadãos constróem a imagem
de Barack Obama. Propaganda
com sabor de ato falho.
Joseph Aloi - Obama and the
kids of the world
-
técnica mista
Psicodelia e culto à personalidade

atualizados por emoticons.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Um pintor em Copacabana

Favela, 1958
óleo sobre tela, 60x80 cm

Publicado originalmente no Jornal Copacabana, edição de Novembro de 2014

          Como tantos brasileiros, ele fez da antiga capital seu lar. Na década de 1950, recém-chegado de Fortaleza, reclamava do Rio que às vezes de tão agitado se torna monótonoPouco depois, completamente apaixonado por nosso bairro, confessava: Eu gosto é dali!
          O temperamento reservado não o afastava da convivência com o público nem do cultivo de amizades, que eram muitas. Morou na Rua Bolívar 129 e na Avenida Copacabana 1032. Expunha na galeria de arte do IBEU, além de inúmeras outras galerias e museus do Brasil e do mundo. A admiração angariada o levou também a ser tema de um curta-metragem.
          Esse homem que um dia fincou raízes entre nós é Antonio Bandeira, um dos maiores pintores abstratos brasileiros, cuja obra volta aos poucos a receber o destaque merecido.
          Bandeira veio aos 22 anos fazer a vida no Rio de Janeiro e com o talento logo conquistou apoio financeiro para estudar em Paris. Lá descobriu que não se adaptava ao ensino sistemático. Passou dificuldades. Procurou então artistas independentes como ele e, para o espanto de todos, deixou para trás o interesse pelos temas brasileiros, pela pintura de Portinari e Di Cavalcanti. Aderiu à abstração e assim participou da renovação de nossa arte.
          De volta ao Brasil e respeitado como artista maduro, dividia o coração entre a cidade natal e o Rio. Fez capas para livros de Rubem Braga e também de Drummond, de quem recebeu a dedicatória de um poema. Associado ao florescimento cultural do país, era lembrado como expoente de uma nação jovem, moderna, que se abria para o mundo.
          Essa é a pintura de Bandeira: de linguagem universal e atenta à sua época, modesta em tamanho e ousada em conteúdo, abstrata e aberta à imaginação de quem a contempla.
          Com o Golpe de 64, o artista fez as malas. Desembarcou em Paris. Bem estabelecido e no auge da carreira, em 1967 achou que havia chegado a hora de operar os pólipos que tanto lhe atrapalhavam a fala. Uma reação à anestesia pôs fim a essa trajetória. A morte precoce aos 45 anos e as mudanças da arte deixaram sua fama em repouso, até que ressurgisse o interesse por sua obra.
          Antonio Bandeira foi mais um ilustre morador de Copacabana, bairro lar da arte e cultura.